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Excessos no CrossFit provocam sérias lesões nos praticantes

Estudo mostra que 74% dos pesquisados tiveram problemas que limitaram o cotidiano

Exagerou. Guilherme pegou pesado demais nos primeiros treinos e acabou piorando uma hérnia de disco que já possuía

Exagerou. Guilherme pegou pesado demais nos primeiros treinos e acabou piorando uma hérnia de disco que já possuía

Ainda novidade no mercado fitness, o CrossFit tem atraído cada vez mais praticantes. Com esse crescimento no interesse e no número de adeptos, porém, aumentam também as pessoas que se lesionam durante as atividades. Nos Estados Unidos, o surgimento de casos de rabdomiólise (síndrome associada à atividade física intensa) preocupa especialistas.

Em 2010, o músico Guilherme Soares de Oliveira Sene, na época com 21 anos, pesava 120 kg e era sedentário. Incomodado, ele resolveu mudar de vida: matriculou-se em uma academia de CrossFit com animação de sobra – e displicência também. “Entrei pegando muito pesado, não ligava para o que os professores falavam nem para as posturas corretas dos exercícios”, conta.

Essa receita não podia dar certo. E não deu. “Em 2011, comecei a sentir dores na coluna. Fui ao médico, fiz os exames e descobri que minha rotina de exercícios tinha piorado uma hérnia de disco que eu já tinha”, conta. Pelo menos, o episódio serviu de lição: depois de operado e recuperado da hérnia, Sene voltou para o CrossFit mais consciente. “Recomecei do zero e do jeito certo. Fiz os exercícios educativos, fui aumentando a intensidade aos poucos. Hoje estou com 92 kg, nunca mais senti dor e estou muito melhor”, comemora ele.

Lesões. No ano passado, a pesquisa “The nature and prevalence of injury during CrossFit training” (A natureza e prevalência de lesões durante o treino de CrossFit), publicada no periódico “The Journal of Strength and Conditioning Research”, submeteu pessoas com diferentes níveis de condicionamento físico aos treinos de CrossFit por dez semanas. Ao fim, revelou-se que 74% dos participantes admitiram ter sofrido uma lesão que os impediu de trabalhar, treinar ou competir. Dentre as áreas mais expostas a lesões na atividade estão os ombros, as costas (região lombar) e os joelhos.

Mais impressionante do que o número revelado no estudo, talvez, foi a conclusão dos pesquisadores. “As taxas de lesões no CrossFit são similares àquelas relatadas na literatura para esportes como halterofilismo e ginástica, e menores do que as de esportes de contato (como o futebol)”, diz o texto da pesquisa.

Para o educador físico e “coach” de CrossFit Carlos Eduardo Guedes Vidal, a conclusão faz muito sentido. “Trabalhei com consultoria esportiva para corrida durante cinco anos, e o número de lesionados lá era muito maior”, relata. “O CrossFit é uma atividade física que exige muita técnica. Grande número dessas lesões ocorre por conta de profissionais malpreparados que estão treinando esses atletas e de praticantes que querem colocar carga demais nos treinos. Exercício feito de forma incorreta, associado à baixa capacidade de execução, causa lesão”, acrescenta o fisioterapeuta Eduester Lopes Rodrigues, presidente da Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva em Minas Gerais.

O ambiente competitivo que se cria durante as aulas costuma ser o combustível para que praticantes mais animados de CrossFit passem do ponto. Vidal vê esse clima como um ponto positivo. “A competição move o homem. A pessoa chega aqui (na academia de CrossFit) e tem motivação. Ela vai vendo os resultados e acaba competindo com ela mesma”, conta.

Mas ele alerta que não entrar “na pilha” da competição é importante para manter a saúde. O segredo para evitar as lesões é, como em todas as atividades físicas, respeitar os limites do corpo. “Você vai aumentar esse limite aos poucos, treinando dentro de uma intensidade que seu corpo vai aumentar o condicionamento e sentir uma necessidade de alteração (do treino). Aos poucos, esse seu limite é expandido”, ensina o treinador.

O Tempo