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Mais um obstáculo para eliminar as curvas da BR-381

Curvas na BR-381, próximo a João Monlevade; o Dnit não se pronunciou sobre a mudança no projeto

Curvas na BR-381, próximo a João Monlevade; o Dnit não se pronunciou sobre a mudança no projeto

Mais de dez anos se passaram desde a elaboração do primeiro projeto de duplicação da BR-381, mas só agora máquinas e operários trabalham na rodovia conhecida pelos acidentes trágicos, que lhe renderam a alcunha de Rodovia da Morte. As obras, tão esperadas, ainda estão longe de terminar e já surgiram obstáculos. Parte do projeto terá de ser refeita porque o consórcio responsável manteve curvas sinuosas que deveriam eliminadas. Outro imbróglio envolve uma das empresas contratadas, investigada pela Polícia Federal na Operação “Lava Jato”, o que coloca em risco o andamento das atividades.

A Engevix, que integra o consórcio vencedor da licitação para executar obras em quatro dos onze lotes da 381, é alvo de denúncias de corrupção entre a Petrobras e grandes empreiteiras. Cinco integrantes da cúpula da empresa foram investigados e três acabaram presos. O suposto envolvimento em operações ilícitas pode resultar na proibição das empreiteiras de participar de obras públicas. Sanção esta aplicada anteriormente à Delta Construções, investigada por suspeita de irregularidades.

Tal medida resultaria em atrasos no cronograma não só da duplicação da BR-381, mas em obras de infraestrutura em diversos outros pontos do país. Possibilidade que tem gerado receio. “Esse assunto será discutido na próxima reunião com o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). Acredito que a situação hoje não afeta a obra porque a Engevix faz parte de um consórcio”, afirma o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Regional Vale do Aço, Luciano Araújo.

FICHA SUJA

As empresas suspeitas de envolvimento no esquema podem ser declaradas inidôneas, antes mesmo da conclusão do inquérito. “Entendo que essa decisão pode paralisar o Brasil. Essas empreiteiras são responsáveis por obras em todo o país, principalmente na área da mobilidade. Se elas não puderem mais atuar em projetos públicos, o prejuízo será inevitável”, avalia o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.

Criminalista conhecido por defender políticos como o senador José Sarney (PMDB-AP) e o senador Zezé Perrela (PDT-MG), Kakay acredita que o impacto nos empreendimentos em andamento deve ser considerado. “É claro que o Estado tem o dever de fazer investigações, mas tem que haver temperança para pesar o fato de que aplicar sanções a essas grandes empresas teria um efeito cascata”.

Na sexta-feira, o Tribunal de Contas da União foi orientado a forçar a Petrobras a declarar, em até 30 dias, a inidoneidade de oito empresas investigadas na “Lava Jato, entre elas a Engevix.

A situação da BR-381 pode se tornar ainda mais grave se considerado o fato de que dois lotes da rodovia ainda não foram licitados. Duas tentativas anteriores fracassaram porque o preço exigido pelas empreiteiras estava acima do teto fixado pelo Dnit. A investigação de atividades suspeitas de empreiteiras pode dificultar o processo. Ainda não há data prevista para a realização de nova licitação para escolher quem vai duplicar o trecho, que fica mais próximo da capital.

Duplicação reduz acidentes graves

A comparação de dois lados de uma mesma rodovia é a prova de que a duplicação da parte Norte da BR-381 poderá levar à redução do número de acidentes frontais, os mais graves e que resultam em mais mortes. Mas isso não quer dizer, necessariamente, uma diminuição no total de colisões. As ocorrências, segundo especialistas, ficariam menos letais.

No trecho Sul da BR-381, conhecido como Fernão Dias, há pistas duplicadas entre Contagem e Extrema, na divisa com São Paulo. Em 2013, foram registrados 7.535 acidentes e 166 óbitos – em um percurso de 450 quilômetros –, média de 0,02 óbito por colisão.

Já no trecho não duplicado, o Norte, foram registrados, no mesmo período, 2.497 acidentes e 126 óbitos, em 305 quilômetros de percurso. A média de mortes por colisão foi duas vezes maior onde há pistas sem a separação física (0,05).

Um perigo real que atinge até quem conhece a rodovia como a palma da mão. Há 17 anos atuando no posto da Polícia Rodoviária Federal na BR-381, na altura de Sabará, o agente Flávio Marc, de 43 anos, não trafega na 381 em determinadas circunstâncias. “Com chuva ou à noite, não pego a estrada com minha família. Sei dos riscos a cada curva e, por mais que seja precavido, não consigo evitar erros cometidos por outros motoristas”, afirma.

Erros que podem ser fatais. “Lembro de um acidente que ocorreu há alguns anos, no Km 444. O carro de uma família foi atingido por outro que seguia no sentido contrário. O casal que estava na frente morreu na hora, porque o carro se partiu, mas a filha de 8 anos sobreviveu. Ela estava no banco de trás, e ficou o tempo todo chamando a mãe. Só o tempo consegue apagar esse tipo de coisa”, relata.

Para quem presencia tragédias diárias, resta apenas aprender a conviver com o medo. “Lembro de um acidente, em novembro do ano passado, entre duas motos e um caminhão. As vítimas tiveram os corpos mutilados. Fiquei chocado e muito comovido com a dor dos parentes”, conta o borracheiro Marcos Martins, de 65 anos, 15 deles trabalhando às margens da BR-381, em Jaguaraçu.

Para quem já perdeu um ente querido, fica a dor que nem o tempo é capaz de aplacar. “Essa rodovia é da morte mesmo, cria cenas macabras. Não consigo esquecer o que aconteceu. Meu tio merecia um fim mais digno”, lamenta um rapaz de 18 anos, que não quis se identificar. Andando pelas margens da rodovia, o jovem encontrou um objeto que trouxe lembranças do episódio trágico. Cabisbaixo, levou para casa o capacete do tio, morto no acidente que chocou o borracheiro Marcos.

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